Por que mulheres ainda empreendem mais por necessidade do que por oportunidade?

Mulher empreendedora trabalhando na mesa da sala de casa com produtos de beleza artesanais em cima da mesa e criança brincando ao fundo, representando o empreendedorismo feminino por necessidade

O empreendedorismo feminino cresceu significativamente nas últimas décadas no Brasil e no mundo. Hoje, milhões de mulheres comandam negócios próprios, atuando em setores diversos como comércio, serviços, tecnologia e economia criativa. No entanto, apesar desse avanço, um padrão ainda se mantém: muitas mulheres iniciam seus empreendimentos por necessidade, e não necessariamente porque identificaram uma oportunidade de mercado.

Essa diferença entre empreender por necessidade ou por oportunidade revela desigualdades estruturais presentes no mercado de trabalho, na divisão do trabalho doméstico e no acesso a recursos como crédito e educação financeira. Entender esse cenário é fundamental não apenas para compreender a realidade das mulheres empreendedoras, mas também para pensar em políticas públicas, apoio institucional e estratégias que fortaleçam o empreendedorismo feminino.

Neste artigo, vamos explorar por que isso ainda acontece, quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres que empreendem e como ferramentas como o MEI (Microempreendedor Individual) e a emissão de nota fiscal podem contribuir para a formalização e crescimento desses negócios.

Empreendedorismo por necessidade vs. por oportunidade

Antes de mais nada, vamos entender a diferença entre esses dois tipos de empreendedorismo. O por necessidade e o por oportunidade:

Empreendedorismo por necessidade ocorre quando uma pessoa abre um negócio porque não encontra outra alternativa de renda, como emprego formal ou outras oportunidades profissionais.

Empreendedorismo por oportunidade, por outro lado, acontece quando alguém identifica uma possibilidade de mercado, planeja um negócio e decide investir nele para crescer e lucrar.

De acordo com dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), as mulheres representam quase metade das pessoas empreendedoras no Brasil (46,8%). Porém, a motivação para iniciar um negócio ainda apresenta diferenças entre os gêneros. Enquanto entre os homens predomina o empreendedorismo por oportunidade, entre as mulheres há praticamente um equilíbrio entre oportunidade e necessidade.

Esse cenário mostra que muitas mulheres ainda recorrem ao empreendedorismo como uma alternativa de sobrevivência econômica.

O impacto das desigualdades no mercado de trabalho

Um dos principais fatores que levam mulheres a empreender por necessidade está relacionado às desigualdades no mercado de trabalho. Em muitos casos, elas enfrentam salários menores, dificuldade de crescimento profissional, interrupções na carreira devido à maternidade e maior vulnerabilidade ao desemprego.

Durante crises econômicas, essas desigualdades tendem a se intensificar. Foi o que ocorreu durante a pandemia de COVID-19, quando muitas mulheres perderam empregos formais e passaram a vender produtos ou oferecer serviços por conta própria para garantir renda. Assim, o empreendedorismo surge muitas vezes como uma alternativa para sustentar a família ou complementar a renda doméstica.

A dupla jornada e o empreendedorismo feminino

Outro fator determinante é a chamada dupla jornada de trabalho. Mesmo quando trabalham fora ou possuem um negócio próprio, muitas mulheres continuam sendo as principais responsáveis por tarefas domésticas e cuidados familiares, como cuidar de filhos, acompanhar familiares idosos e administrar a casa. Essa sobrecarga de responsabilidades limita o tempo disponível para investir no crescimento do negócio.

Estudos do Sebrae e do Instituto RME / Rede Mulher Empreendedora indicam que entre 67% e 73% das mulheres empreendedoras no Brasil são mães. Isso influencia diretamente a forma como seus negócios são estruturados e administrados. 

Por esse motivo, muitas optam por empreendimentos menores, que possam ser conciliados com a rotina familiar, como vendas online, produção artesanal, serviços de beleza, culinária e comércio informal. Esses negócios são fundamentais para a geração de renda, mas muitas vezes têm menor potencial de crescimento econômico.

Barreiras de acesso a crédito e investimento

Outro obstáculo importante é o acesso a crédito. Empreendedoras frequentemente enfrentam mais dificuldade para conseguir financiamento, seja por falta de garantias financeiras, histórico de crédito ou desigualdades estruturais no sistema financeiro.

Isso limita a capacidade de investimento em equipamentos, tecnologia, marketing e expansão do negócio. Como resultado, muitas mulheres iniciam seus negócios com poucos recursos e enfrentam dificuldades para crescer. Em sua maioria, negócios criados por necessidade tendem a ter menor planejamento estratégico e menor previsibilidade de crescimento, justamente por surgirem como resposta a uma urgência econômica.

Setores com maior presença feminina

Mulheres de diferentes etnias representando os setores com maior presença feminina

Outro ponto relevante é que as mulheres empreendem, em grande parte, em setores com margens de lucro menores. Entre os segmentos mais comuns estão comércio varejista, alimentação, moda, beleza, serviços domésticos e educação informal.

Segundo pesquisa da CNDL/SPC Brasil, muitas empreendedoras atuam em comércio e serviços, áreas que exigem menos investimento inicial, mas também costumam oferecer menor retorno financeiro quando comparadas a setores como tecnologia ou indústria. Isso reforça o ciclo em que o empreendedorismo feminino muitas vezes surge como solução de sobrevivência econômica, e não necessariamente como estratégia de crescimento empresarial.

A importância da formalização do negócio

Apesar dos desafios, o empreendedorismo feminino tem se tornado uma ferramenta importante de autonomia financeira. Uma etapa fundamental nesse processo é a formalização do negócio. 

Isso traz diversas vantagens, como acesso a crédito, participação em licitações, emissão de nota fiscal, maior confiança dos clientes e possibilidade de crescimento estruturado. No Brasil, a principal porta de entrada para essa formalização é o MEI (Microempreendedor Individual).

O que é MEI e como ele ajuda empreendedoras

O MEI foi criado para facilitar a formalização de pequenos negócios e trabalhadores autônomos. Para muitas mulheres que começam a empreender vendendo produtos ou prestando serviços, esse modelo é uma forma simples e acessível de legalizar a atividade.

Entre as principais vantagens do MEI estão:

1. Baixa carga tributária

O empreendedor paga um valor mensal fixo que inclui impostos e contribuição previdenciária.

2. Acesso à Previdência Social

O MEI garante benefícios como aposentadoria, auxílio-doença e salário-maternidade.

3. Possibilidade de emitir nota fiscal

Isso permite vender para empresas e órgãos públicos, além de auxiliar a controlar o faturamento, despesas e conseguir crédito em bancos e instituições financeiras.

4. Facilidade de abertura

O cadastro pode ser feito online, gratuitamente.

Para mulheres que começam um negócio em casa — como confeitaria, artesanato, consultoria ou serviços digitais — o MEI costuma ser a forma mais simples de iniciar a formalização. Ele impede dores de cabeça futuras e amplia a confiança dos clientes.

O futuro do empreendedorismo feminino

Apesar dos desafios, o cenário do empreendedorismo feminino no Brasil vem evoluindo. Cada vez mais mulheres buscam capacitação empreendedora, utilizam ferramentas digitais, criam redes de apoio e investem em inovação. Programas de incentivo, educação financeira e acesso a crédito também têm contribuído para fortalecer esse movimento.

Além disso, o crescimento do comércio eletrônico e das redes sociais abriu novas possibilidades de negócios, permitindo que mulheres empreendessem com menor investimento inicial. O desafio agora é transformar cada vez mais negócios criados por necessidade em empreendimentos sustentáveis e escaláveis, capazes de gerar renda, emprego e inovação.

O fato de muitas mulheres ainda empreenderem por necessidade não significa falta de capacidade empreendedora. Pelo contrário: revela a força e a criatividade de milhões de brasileiras que encontram no empreendedorismo uma forma de superar obstáculos e construir autonomia financeira.

No entanto, para que esse cenário evolua, é fundamental ampliar políticas de apoio ao empreendedorismo feminino, acesso a crédito, educação financeira, redes de mentoria e formalização via MEI e emissão de nota fiscal. Quando essas condições existem, o empreendedorismo deixa de ser apenas uma alternativa de sobrevivência e passa a ser uma verdadeira oportunidade de crescimento e transformação social.

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