Nos mais diferentes lugares e tempos históricos, mulheres estão quase sempre em uma posição social desvalorizada, subjugada e dominada. A desvalorização de profissões ocupadas predominantemente por mulheres não é algo exclusivo da sociedade brasileira em que vivemos.
Mulheres são mais representadas que homens exatamente nos empregos que remuneram pouco e são pouco reconhecidos. Sejam as que não recebem nada por realizar trabalho doméstico como donas de casa ou aquelas em profissões associadas ao cuidado (professoras, enfermeiras, zeladoras, empregadas domésticas, cuidadoras de idosos) ou aos domínios da estética e da beleza (manicures, cabeleireiras, estilistas) ou de assistentes (secretárias), mulheres estão frequentemente em desvantagem em relação aos homens no mercado de trabalho.
Quantas mulheres ocupam posições de destaque nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia ou matemática? Quantas mulheres aparecem nas revistas que dão destaques a grandes “homens de negócios”? A própria expressão homem de negócio já indica uma exclusão: o sucesso econômico e reconhecimento social aparece como algo quase exclusivo dos homens, tirando poucas exceções.
Nesse contexto, uma mulher ter a vontade e coragem de empreender é um grande ato de contestação das estruturas de poder. Iniciando o próprio negócio, a mulher se liberta e pode alcançar uma posição de liderança que lhe é frequentemente negada no mercado de trabalho atual.
Estruturas de poder patriarcais: como mulheres se tornam dominadas?
É possível dizer que mesmo antes de nascer, ser mulher já é estar em desvantagens. A escritora feminista italiana Elena Gianini Benotti analisa em seu livro sobre a criação de meninas, que mulheres grávidas italianas compartilhavam crenças populares de que certos rituais favoreciam o nascimento de filhos homens e os realizavam, na esperança de terem meninos ao invés de meninas.
Essa desvalorização das mulheres, portanto, antecede o nascimento e se mantém por todo o crescimento das meninas até o último dia de suas vidas. Isso se reflete no modo em que essas meninas são criadas e nas expectativas do que devem fazer ao se tornarem mulheres adultas.
Uma série de estereótipos negativos se acumulam durante a socialização delas: mulheres devem ser mães e se dedicar prioritariamente na criação de seus filhos enquanto seus maridos seguem trabalhando, subindo na hierarquia e ganhando dinheiro; mulheres devem realizar as tarefas domésticas; mulheres se importam muito com as aparências, então devem são mais apropriadas para atuarem como cabeleireiras, manicures, estilistas; mulheres têm “instintos maternais” de cuidado então trabalham melhor como enfermeiras ou cuidadoras de idosos; etc.
Aos homens, por sua vez, é sempre ensinado serem competitivos, fortes, dominantes, hierarquicamente superiores: homens devem se dedicar prioritariamente à carreira e não ao cuidado dos filhos; homens devem buscar posições hierárquicas maiores em seus empregos, ou seja, devem ser líderes; homens devem se interessar mais por tecnologia, se dedicando às ciências; homens devem ser autônomos, sendo chefes de si e dos outros.
Diante de criações tão opostas, poucas mulheres adquirem coragem e autoconfiança suficientes para reverter esse destino social sexista que as coloca em empregos mal remunerados e sem reconhecimento social. Interesse em posições de poder, força de vontade e segurança-de-si são qualidades ensinadas com muito frequência a apenas um dos sexos.
Mas as estruturas de poder não se mantêm só por conta de uma socialização que desvia mulheres de posições mais autônomas ou de liderança. Além disso, mulheres acabam enfrentando muitos preconceitos quando enfrentam de frente um mercado de trabalho excludente: exclusão de cargos de liderança por parte de homens em posições hierarquicamente superiores; assédio moral e sexual no cotidiano; subestimação de suas capacidades, competências e inteligência; etc.
Mas isso não significa que não há esperança: o destino de nossas vidas é algo que se constrói e não algo dado no nascimento. Estruturas do poder patriarcais podem ser criticadas, contestadas e superadas, seja na ação coletiva ou na ação individual.
Construindo o próprio destino: o negócio próprio como meio de contestar estruturas de poder

Nesse contexto hostil, a solução para mulheres que querem ter mais poder sobre as próprias vidas, que desejam alcançar uma posição de líder e que querem reverter esse quadro sexista que afeta suas vidas é empreender.
Diversas barreiras do mercado de trabalho tradicional, dominado pelos homens, como assédio e preconceito com as mulheres, podem ser contornados por uma mulher independente que abre o próprio negócio. Não tendo mais que escolher uma carreira que a educação sexista impõe como um destino, a mulher empreendedora pode desistir sobre o próprio trabalho com maior liberdade: que produto ou serviço quer oferecer; que horário quer trabalhar; que clientes quer atingir; que atividade te dá mais alegria, confiança e esperança num futuro melhor para si mesma?
Uma mulher que adquire essa autonomia, essa liberdade, esse poder sobre o próprio destino, é uma mulher que abala as estruturas patriarcais de poder. Independente, forte, confiante de si. Alcança finalmente uma posição de líder.
Com isso não quero dar a impressão que todos os problemas se resolvem e que as estruturas de poder não afetem também essas mulheres empreendedoras. Mas o negócio próprio dá a essas mulheres possibilidades maiores de resistência. Com a coragem e força de vontade necessárias, a desvalorização enquanto mulher pode ser contestada e superada, um passo de cada vez.
Além disso, quanto mais mulheres líderes, independentes e empreendedoras, melhor o destino de todas as mulheres. Estas mulheres a frente de seu tempo se tornam exemplo para suas contemporâneas e para as meninas do futuro. Ao observarem mulheres fortes, donas dos próprios negócios, as meninas terão modelos para se inspirar. Não terão como expectativa uma vida enquanto dominadas, mas enquanto pessoas confiantes e independentes.
O empreendedorismo, portanto, apesar de ser uma ação individual, é algo que move todas as estruturas tradicionais de poder. É uma parte necessária para a construção de um mundo melhor para todas as mulheres, em que elas sejam verdadeiramente valorizadas em pé de igualdade com os homens. O que está estabelecido pela tradição sexista deixa de ser um destino inevitável e pode se tornar um passado superado, retrógrado, que não faz sentido para as mulheres de hoje e do futuro.
Histórias para se inspirar: grandes mulheres de negócios
Várias mulheres já estão transformando as estruturas e abrindo as portas para outras mulheres alcançarem posições de líderes na sociedade atual.
Um exemplo é a Luiza Helena Trajano, que transformou um pequeno negócio familiar de varejo na gigante do e-commerce Magazine Luiza, marca que bate de frente com gigantes internacionais como a Amazon.
Outro nome de destaque é a cozinheira e empresária Paola Carosella. Apesar de ser talvez mais conhecida por sua participação como jurada do programa de televisão Masterchef Brasil, ela é uma chef reconhecida mundialmente e empreendedora, atualmente dona do restaurante Arturito, um dos mais premiados de São Paulo.
Outra empreendedora de destaque é a Chieko Aoki, dona de uma das maiores redes hoteleiras do Brasil, a Blue Tree Hotels. Com mais de 20 hotéis em operação, a empresária ainda atua na luta coletiva ao incentivar o empreendedorismo de mulheres como integrante do Grupo Mulheres do Brasil.
Conclusão
Por fim, o importante desses exemplos de grandes mulheres de negócios é mostrar que mulheres podem alcançar posições de liderança com seus negócios apesar de todas as estruturas tradicionais de poder que servem de barreiras para elas.
São mulheres com trajetórias e negócios diferentes, mas que demonstram que é possível para as mulheres alcançarem mais independência e posições sociais valorizadas desde que possuam confiança, perseverança, criatividade e muita dedicação.
O futuro pode ser mais feliz para todas as mulheres se, seguindo o modelo dessas empreendedoras inspiradoras, mais mulheres tomarem a decisão de tomar as rédeas da própria vida e lutar por uma vida melhor para si mesmas e para as outras mulheres por meio de seus negócios.