O Empreendedorismo como Instrumento de Transformação na Vida das Mulheres

Depender dos outros é algo normal na vida cotidiana. Enquanto seres humanos, somos limitados em nossas capacidades e competências e necessitamos uns dos outros para viver bem. Recebemos auxílio de familiares e amigos ou até mesmo de pessoas desconhecidas, mas que impactam nossas vidas positivamente de forma direta ou indireta com os serviços que elas prestam para a sociedade.

O problema surge, no entanto, quando essa dependência de ajuda humana se exacerba e se transforma em impotência. Em outras palavras, quando a dependência dos outros que é normal se transforma em perda de controle sobre a própria vida. Isso se torna particularmente preocupante na vida de muitas mulheres. Por exemplo, podemos colocar a questão de quantas mulheres vivem casamentos infelizes, marcados por graus variados de violências sofridas, por conta do fato que sua sobrevivência depende de seu cônjuge. A falta de certo grau de autonomia é, portanto, um risco grave que deve ser levado a sério.

Frequentemente sem um diploma de grau elevado que garanta oportunidades de um emprego que seja seguro, digno e bem remunerado, diversas mulheres de origem social humilde experimentam uma situação sofrida de falta de controle sobre o próprio destino. É nesse contexto que empreender se torna não só um meio, mas uma necessidade para quem deseja recuperar as rédeas da própria existência. Sem cair em ilusões de independência absoluta, ser empreendedora significa lutar para alcançar uma vida mais autônoma.

O que significa ter autonomia?

A palavra autonomia é cheia de significado. Ela está intimamente associada à noção de liberdade, mas liberdade num sentido bem restrito. Não significa simplesmente fazer “o que der na telha”, seguir as paixões de forma irrefletida. Afinal, será que alguém que segue todo e qualquer desejo de maneira irrefletida é verdadeiramente livre? Evidentemente a resposta é não, pois isso implica uma falta de controle de si mesmo.

A resposta negativa à questão nos faz lembrar que a autonomia, junção de auto e nomos, implica a capacidade do sujeito de atribuir regras, normas ou direção à própria conduta de forma consciente, reflexiva e racional, sem a tutela dos outros. Nesse contexto, aquele que vive a partir de normas determinadas por si é autônomo e aquele que vive de normas externas e impostas por alguma autoridade tradicional é um sujeito heterônomo.

Para comparar com a autonomia, podemos falar do automóvel. O que é o automóvel senão o veículo capaz de se mover por si só, sem um motor externo? O carro, a moto ou o caminhão são automóveis. Para descrever uma charrete, que depende de um cavalo para puxá-la, poderíamos inventar o termo “heteromóvel”, pois se trata de um veículo integralmente dependente de outro para entrar em movimento.

Ter autonomia implica, portanto, a capacidade de definir os fins e os meios da própria conduta sem tutela alheia. Em outras palavras, definir os objetivos a serem alcançados e os modos de alcançá-los. 

A vida heterônoma de muitas mulheres

Um problema grave que afeta a vida de inúmeras mulheres, especialmente as de origem social mais humilde e que enfrentam várias barreiras de oportunidades e sofrem com diversos tipos de preconceito, é uma situação de vida marcada pela heteronomia.

Vários fatores podem estar por trás dessa falta de controle do próprio destino. A desigualdade de acesso à educação, por exemplo, é uma barreira para alcançar bons empregos que garantam um salário digno, boas condições de trabalho, perspectiva de crescimento e direitos trabalhistas. Os subempregos que restam como opção dificilmente dão qualquer possibilidade de uma verdadeira autonomia surgir.

Outro fator, que afeta especialmente as mulheres, é o ideal retrógrado de que elas estão destinadas ao trabalho doméstico e à posição de “dona de casa”, que trabalha sem remuneração e vive com o sustento do marido. Em outras palavras, normas sociais externas se impõem colocando mulheres em uma situação de dependência absoluta de seus cônjuges para a própria subsistência.

Esta posição de dependência total não apenas é sufocante, mas é potencialmente perigosa. Sem independência financeira, estas mulheres estão expostas à sofrer violência doméstica, ao abandono por parte de seus parceiros ou simplesmente a uma vida infeliz.

Empreender como ferramenta para alcançar autonomia

Uma vida heterônoma não deve ser vista, entretanto, como um destino inevitável para as mulheres. Com as necessárias autoconfiança e força de vontade, o sonho de uma vida mais autônoma, plena e feliz é possível de se tornar um objetivo realizável. Como? Empreender é o caminho.

O ponto central e mais importante é que por meio de um empreendimento próprio se torna possível alcançar a independência financeira que é condição necessária para a autonomia em sentido mais amplo. Afinal, que liberdade para guiar autonomamente a própria vida pode ter alguém sem recursos próprios?

Os rendimentos de um negócio próprio significam superar a condição de dependência que surge, por exemplo, da situação de subemprego, que é instável, insegura, precária e sem garantias ou direitos. Além disso, esses rendimentos permitem escapar da dependência total da tutela e cuidado de um outro, situação de dependência que dá abertura para riscos graves à própria dignidade como violência, abandono, etc.

Como rendimentos derivados de seu empreendimento, se torna possível também garantir as condições básicas de subsistência (moradia, alimentação, saúde, vestimenta), além do desenvolvimento pessoal (educação contínua, desenvolvimento moral), lazer (passeios, viagens, etc.) e maior capacidade de planejar o próprio futuro (por conta de uma vida mais estável).

Vale ressaltar que a autonomia oriunda de se tornar empreendedora não se restringe à financeira. Afinal, empreender é por sua própria natureza um exercício de autonomia: define-se o próprio trabalho (qual é a atividade, qual é seu tempo de trabalho e seus horários) e torna-se patrão de si mesmo (definindo os rumos da própria atividade). A autonomia se torna plenamente substancial, como algo que se vive a cada momento.

Empreender é, portanto, um ato de empoderamento feminino no sentido profundo da palavra “empoderamento”. A autonomia financeira que comandar o próprio negócio pode oferecer é condição essencial para alcançar poder de decisão sobre seu destino. Pode-se assim superar uma condição de submissão e menoridade, alcançar liberdade e controle sobre a própria vida.



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