Empreendedorismo feminino diverso: mulheres negras, periféricas e LGBTQIAPN+

Grupo diverso de mulheres empreendedoras trabalha em um ambiente colaborativo. Em primeiro plano, uma mulher negra utiliza um notebook enquanto outra prepara embalagens para envio de produtos. Ao fundo, uma mulher asiática consulta um tablet e uma pessoa LGBTQIAPN+ organiza materiais. Elementos gráficos remetem ao empreendedorismo feminino, à diversidade, à inclusão e ao crescimento, representando mulheres negras, periféricas e LGBTQIAPN+ construindo oportunidades por meio do empreendedorismo.

Nos últimos anos, o empreendedorismo feminino passou a ocupar um espaço central em discursos sobre autonomia, independência financeira e ascensão profissional. Em palestras, campanhas publicitárias e nas redes sociais, empreender costuma ser apresentado como um caminho de liberdade — quase como uma solução universal para desigualdades de gênero. Mas essa narrativa levanta uma pergunta importante: quando falamos sobre empreendedorismo feminino, de quais mulheres estamos falando?

A ideia de “mulher empreendedora” muitas vezes aparece como uma categoria homogênea, como se todas compartilhassem das mesmas oportunidades, desafios e pontos de partida. No entanto, a realidade é bem mais complexa. Gênero não é o único fator que influencia trajetórias profissionais. Raça, classe social, território e sexualidade também moldam, de forma decisiva, quem consegue empreender, em quais condições e com quais possibilidades de crescimento.

É nesse contexto que a interseccionalidade, conceito desenvolvido por Kimberlé Crenshaw, se torna fundamental. A autora propõe compreender como diferentes sistemas de opressão — como racismo, sexismo e desigualdade de classe — não atuam separadamente, mas de forma simultânea. Em outras palavras, a experiência de uma mulher branca de classe média não pode ser equiparada à de uma mulher negra periférica ou à de uma mulher trans em situação de vulnerabilidade social.

Barreiras para mulheres negras

As mulheres negras representam quase a metade das mulheres empreendedoras no Brasil, são as que mais empreendem por necessidade: metade das empreendedoras negras iniciou um negócio pela falta de oportunidade de emprego formal.

Elas acabam contando com poucos recursos e suporte, o que dificulta o crescimento do negócio. Além do acesso a crédito e capacitação, estruturar um negócio feminino de forma planejada também é um passo importante para ampliar as possibilidades de desenvolvimento. Além disso, muitas possuem menos tempo para se dedicar às próprias empresas, já que frequentemente acumulam as responsabilidades do trabalho, da casa e do cuidado com a família. Segundo a Secretaria Nacional de Inclusão Socioprodutiva, Artesanato e Microempreendedor Individual (SISAM), 59% das empreendedoras negras trabalham menos de 40 horas semanais, enquanto entre as mulheres brancas esse percentual é de 49%. 

E apenas 24% das mulheres negras têm negócios formalizados, esse cenário impacta diretamente no acesso ao crédito e no recebimento de apoio institucional. Assim elas não se beneficiam de políticas públicas e programas de apoio que poderiam auxiliar na profissionalização e no crescimento de suas empresas.

Barreiras da periferia

O estudo “Persona Favela” feito pelo Novo Outdoor Social (NOS) apontou que 60% dos empreendimentos nas favelas são liderados por mulheres –  que em sua maioria são negras –  e majoritariamente atuam na fabricação própria de produtos para venda, como artesanato, venda de bolos, serviço de manicure e design de sobrancelhas.

O empreendedorismo nas favelas tem impacto positivo para todos, gera renda para a empreendedora, cria empregos e movimenta a economia local – mas dificuldades como a falta de conhecimento de gestão e a falta de uma reserva inicial de dinheiro são desafios comuns para as empreendedoras periféricas. Em território periférico o empreendedorismo é muito presente, então as gestoras devem buscar formas de se destacar no meio de tantos negócios.

Nathália Rodrigues, educadora financeira e empresária, nasceu na periferia de Nova Iguaçu (RJ). Formada em Administração, fundou a Nath Finanças em 2019, projeto que democratiza a educação financeira para pessoas de baixa renda. Ela começou publicando vídeos no YouTube ensinando como economizar com um salário mínimo e sair das dívidas. Hoje, também é fundadora da Nath Pay, um streaming voltado à educação financeira. Sua trajetória demonstra como mulheres líderes podem transformar suas comunidades, criar novos modelos de negócio e ampliar oportunidades para outras empreendedoras. 

Nath Finanças

Barreiras LGBTQIAPN+

Quando olhamos para mulheres LGBTQIAPN+, especialmente mulheres trans e travestis, as desigualdades se tornam ainda mais evidentes. Uma pesquisa realizada pelo Sebrae apontou que pessoas trans ou travestis são as que mais empreendem – e atuam principalmente nos setores de beleza, estética, comércio, entretenimento e cultura.

A discriminação no mercado formal empurra muitas dessas pessoas para a informalidade ou para formas precárias de trabalho. Nesse cenário, o empreendedorismo aparece, muitas vezes, não como escolha ideal, mas como estratégia de sobrevivência. 

Raquel Virgínia é fundadora e CEO da agência Nhaí, formada em História, mulher trans e negra. A agência é uma startup que cria projetos de consultoria e comunicação com foco em diversidade para empresas. A Nhaí organiza o Contaí Summit, um encontro de empreendedores LGBTQIAP+, online e gratuito, que tem como objetivo inspirar negócios e gerar conexões entre a comunidade e grandes marcas.

Empreender vai além da independência financeira. O empreendedorismo como instrumento de transformação na vida das mulheres também fortalece a construção de espaços mais inclusivos, seguros e acolhedores, ampliando oportunidades e inspirando novas trajetórias.

O empreendedorismo de pessoas LGBTQIAPN+ também exerce um papel importante de representatividade. Histórias de sucesso ajudam a inspirar novos empreendedores, fortalecem a comunidade e mostram que é possível construir negócios inovadores mesmo diante de tantas barreiras.

Um empreendedorismo feminino mais inclusivo começa pelo reconhecimento das diferenças 

Reconhecer que raça, classe social, território e identidade de gênero influenciam as oportunidades de empreender não enfraquece a pauta do empreendedorismo feminino. Pelo contrário, amplia o debate e permite compreender que mulheres não partem do mesmo ponto nem enfrentam os mesmos desafios.

Embora o empreendedorismo represente uma oportunidade de autonomia, realização e independência financeira, para muitas mulheres ele ainda nasce da necessidade, impulsionado pela dificuldade de acesso ao mercado de trabalho formal, pela discriminação e pela falta de oportunidades.

Mulheres negras, periféricas e LGBTQIAPN+ seguem enfrentando obstáculos maiores para acessar crédito, formalizar seus negócios, conquistar visibilidade e ampliar suas empresas. Reconhecer essas desigualdades é um passo fundamental para construir um ambiente empreendedor mais justo e representativo.

Promover um empreendedorismo verdadeiramente inclusivo exige ampliar o acesso à capacitação, ao crédito, às redes de apoio e às políticas públicas que considerem as diferentes realidades vividas pelas mulheres. Quando mais mulheres têm condições de empreender com segurança e oportunidades reais de crescimento, fortalecem-se não apenas os negócios, mas também a economia, a inovação e a transformação social.

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