Nos últimos anos, o empreendedorismo feminino passou a ocupar um espaço central em discursos sobre autonomia, independência financeira e ascensão profissional. Em palestras, campanhas publicitárias e nas redes sociais, empreender costuma ser apresentado como um caminho de liberdade — quase como uma solução universal para desigualdades de gênero. Mas essa narrativa levanta uma pergunta importante: quando falamos sobre empreendedorismo feminino, de quais mulheres estamos falando?
A ideia de “mulher empreendedora” muitas vezes aparece como uma categoria homogênea, como se todas compartilhassem das mesmas oportunidades, desafios e pontos de partida. No entanto, a realidade é bem mais complexa. Gênero não é o único fator que influencia trajetórias profissionais. Raça, classe social, território e sexualidade também moldam, de forma decisiva, quem consegue empreender, em quais condições e com quais possibilidades de crescimento.
É nesse contexto que a interseccionalidade, conceito desenvolvido por Kimberlé Crenshaw, se torna fundamental. A autora propõe compreender como diferentes sistemas de opressão — como racismo, sexismo e desigualdade de classe — não atuam separadamente, mas de forma simultânea. Em outras palavras, a experiência de uma mulher branca de classe média não pode ser equiparada à de uma mulher negra periférica ou à de uma mulher trans em situação de vulnerabilidade social.
Barreiras para mulheres negras
As mulheres negras representam quase a metade das mulheres empreendedoras no Brasil, são as que mais empreendem por necessidade: metade das empreendedoras negras iniciou um negócio pela falta de oportunidade de emprego formal.
Elas acabam contando com poucos recursos e suporte, o que dificulta o crescimento do negócio. Além do acesso a crédito e capacitação, estruturar um negócio feminino de forma planejada também é um passo importante para ampliar as possibilidades de desenvolvimento. Além disso, muitas possuem menos tempo para se dedicar às próprias empresas, já que frequentemente acumulam as responsabilidades do trabalho, da casa e do cuidado com a família. Segundo a Secretaria Nacional de Inclusão Socioprodutiva, Artesanato e Microempreendedor Individual (SISAM), 59% das empreendedoras negras trabalham menos de 40 horas semanais, enquanto entre as mulheres brancas esse percentual é de 49%.
E apenas 24% das mulheres negras têm negócios formalizados, esse cenário impacta diretamente no acesso ao crédito e no recebimento de apoio institucional. Assim elas não se beneficiam de políticas públicas e programas de apoio que poderiam auxiliar na profissionalização e no crescimento de suas empresas.
Barreiras da periferia
O estudo “Persona Favela” feito pelo Novo Outdoor Social (NOS) apontou que 60% dos empreendimentos nas favelas são liderados por mulheres – que em sua maioria são negras – e majoritariamente atuam na fabricação própria de produtos para venda, como artesanato, venda de bolos, serviço de manicure e design de sobrancelhas.
O empreendedorismo nas favelas tem impacto positivo para todos, gera renda para a empreendedora, cria empregos e movimenta a economia local – mas dificuldades como a falta de conhecimento de gestão e a falta de uma reserva inicial de dinheiro são desafios comuns para as empreendedoras periféricas. Em território periférico o empreendedorismo é muito presente, então as gestoras devem buscar formas de se destacar no meio de tantos negócios.
Nathália Rodrigues, educadora financeira e empresária, nasceu na periferia de Nova Iguaçu (RJ). Formada em Administração, fundou a Nath Finanças em 2019, projeto que democratiza a educação financeira para pessoas de baixa renda. Ela começou publicando vídeos no YouTube ensinando como economizar com um salário mínimo e sair das dívidas. Hoje, também é fundadora da Nath Pay, um streaming voltado à educação financeira. Sua trajetória demonstra como mulheres líderes podem transformar suas comunidades, criar novos modelos de negócio e ampliar oportunidades para outras empreendedoras.

Nath Finanças
Barreiras LGBTQIAPN+
Quando olhamos para mulheres LGBTQIAPN+, especialmente mulheres trans e travestis, as desigualdades se tornam ainda mais evidentes. Uma pesquisa realizada pelo Sebrae apontou que pessoas trans ou travestis são as que mais empreendem – e atuam principalmente nos setores de beleza, estética, comércio, entretenimento e cultura.
A discriminação no mercado formal empurra muitas dessas pessoas para a informalidade ou para formas precárias de trabalho. Nesse cenário, o empreendedorismo aparece, muitas vezes, não como escolha ideal, mas como estratégia de sobrevivência.
Raquel Virgínia é fundadora e CEO da agência Nhaí, formada em História, mulher trans e negra. A agência é uma startup que cria projetos de consultoria e comunicação com foco em diversidade para empresas. A Nhaí organiza o Contaí Summit, um encontro de empreendedores LGBTQIAP+, online e gratuito, que tem como objetivo inspirar negócios e gerar conexões entre a comunidade e grandes marcas.
Empreender vai além da independência financeira. O empreendedorismo como instrumento de transformação na vida das mulheres também fortalece a construção de espaços mais inclusivos, seguros e acolhedores, ampliando oportunidades e inspirando novas trajetórias.
O empreendedorismo de pessoas LGBTQIAPN+ também exerce um papel importante de representatividade. Histórias de sucesso ajudam a inspirar novos empreendedores, fortalecem a comunidade e mostram que é possível construir negócios inovadores mesmo diante de tantas barreiras.
Um empreendedorismo feminino mais inclusivo começa pelo reconhecimento das diferenças
Reconhecer que raça, classe social, território e identidade de gênero influenciam as oportunidades de empreender não enfraquece a pauta do empreendedorismo feminino. Pelo contrário, amplia o debate e permite compreender que mulheres não partem do mesmo ponto nem enfrentam os mesmos desafios.
Embora o empreendedorismo represente uma oportunidade de autonomia, realização e independência financeira, para muitas mulheres ele ainda nasce da necessidade, impulsionado pela dificuldade de acesso ao mercado de trabalho formal, pela discriminação e pela falta de oportunidades.
Mulheres negras, periféricas e LGBTQIAPN+ seguem enfrentando obstáculos maiores para acessar crédito, formalizar seus negócios, conquistar visibilidade e ampliar suas empresas. Reconhecer essas desigualdades é um passo fundamental para construir um ambiente empreendedor mais justo e representativo.
Promover um empreendedorismo verdadeiramente inclusivo exige ampliar o acesso à capacitação, ao crédito, às redes de apoio e às políticas públicas que considerem as diferentes realidades vividas pelas mulheres. Quando mais mulheres têm condições de empreender com segurança e oportunidades reais de crescimento, fortalecem-se não apenas os negócios, mas também a economia, a inovação e a transformação social.